05 outubro 2013

Valência: Sismos continuam junto a armazém de gás






Mais de 20 sismos, incluindo um de magnitude 4,1 na escala de Richter, registaram-se desde a noite de terça-feira na zona do Golfo de Valência próximo de um polémico armazém subterrâneo de gás natural instalado nas costas de Vinarós (Castellón, Espanha).

Dados do Instituto Geográfico Nacional referem que desde meados de Setembro a zona registou já quase 350 sismos, numa situação que está a suscitar polémica e amplo debate em torno do futuro do projecto.

Nas últimas horas o sismo mais intenso ocorreu cerca das 23:30 de terça-feira, atingindo uma magnitude de 4,1 graus, seguindo-se a um outro que atingiu os 3,9 graus.

O movimento de terra mais intenso desde que começaram a registar-se estes terramotos relacionados com o projecto Castor, como é conhecido, ocorreu na madrugada da terça-feira com uma magnitude de 4,2 graus, levando a activar o plano de risco sísmico da Generalitat (Governo regional) valenciana.


Com um investimento de 1.200 milhões de euros, o projecto Castor procura aproveitar um antigo poço petrolífero a 1.750 metros de profundidade sob o nível do mar para ali injectar gás, criando uma reserva estratégica para Espanha.

O poço permitiria armazenar o que se estima seja gás suficiente para um terço da procura do sistema durante 50 dias.

Idêntico a outros projectos do tipo existentes em Espanha, este está a causar polémica devido à actividade sísmica que começou a 13 de Setembro e que continua, apesar de a 26 de Setembro o Ministério de Indústria ter ordenado a interrupção temporária da injecção de gás.

Geólogos e outros especialistas têm afirmado nos últimos dias que os numerosos sismos registados na costa de Castellón e Tarragona se devem à "sismicidade induzida" pelo projecto Castor.

No intuito de analisar a situação actual, técnicos do Ministério de Indústria visitaram na terça-feira as instalações do Castor, desconhecendo-se para já quaisquer conclusões da visita.

A empresa que gere a unidade, Escal UGS, assegurou que os dados sismológicos se estão a recolher e a ser comunicados pontualmente às autoridades locais, autonómicas e nacionais, reiterando a sua vontade de colaborar com as directrizes do executivo.

Para o presidente do Colégio de Geólogos, Luis Suárez, a decisão de ordenar a paralisação na injecção de gás é "muito acertada", já que o armazenamento se realiza injectando gás numa rocha que acumula energia de maneira natural pelos processos de dinâmica da Terra e que se liberta através de ondas sísmicas.

Luis González de Vallejo, catedrático de Engenharia Geológica da Universidade Complutense de Madrid, explicou que a pressão a que se injecta o gás no antigo poço petrolífero é "muito elevada", o que "sempre" provoca fracturas na rocha.

Além disso, explicou, a "sismicidade induzida" ou "criada onde antes não existia" pelas injecções na rocha produz centenas de terramotos, que costumam chegar a um valor máximo de 4,3 na escala de Richter.

A correlação "perfeita" entre injecções e sismicidade é "algo que se sabe" desde os anos 60, disse.

A organização ambiental Ecologistas em Acção considerou que o projecto demonstra "o grave risco das actuações no subsolo" e o ministro de Agricultura, Alimentação e Ambiente, Miguel Arias Cañete, disse que a declaração de impacto ambiental do projeto não tinha "nenhum condicionamento" relativo a problemas sísmicos.

O armazenamento subterrâneo de Castor é um dos maiores dos cinco existentes ou previstos em Espanha: Gaviota e Castor (ambos situados no mar), Yela, Serrablo e Marismas.

Estas instalações subterrâneas aproveitam antigos poços esgotados de petróleo ou de gás natural ou aquíferos salinos para poder armazenar esta matéria-prima.

O processo consiste em retirar gás natural desde a rede básica de gasodutos, que é depois comprimido e injectado nos poços.

Segundo a Enagás, proprietária de Gaviota, Yela e Serrablo, o gás injetado desloca a água que preenche os buracos da 'rocha-armazém' que, por sua vez, está selada por outra rocha impermeável. 

No caso do Castor são necessários seis meses seguidos para injetar a totalidade do gás denominado "de trabalho ou útil", ou seja, que se pode extrair quando a procura assim o exigir.

Junto a este gás, existe um denominado gás de colchão que fica preso entre os poros e que, ainda que não seja 'útil' para consumo, é necessário para que a instalação funcione.

A capacidade de armazenamento é importante para garantir o fornecimento num país como Espanha, que importa praticamente a totalidade de seu consumo, referem as autoridades.
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